Alguns programas de televisão não possuem a minha audiência,
porque os considero alienantes. Dentre eles, as telenovelas passam longe de
meus programas favoritos. Logicamente tenho gosto por notícias, entrevistas,
reportagens e documentários.
Odorico Paraguassu, interpretado por Paulo Gracindo era o prefeito corrupto de "O Bem Amado" |
Mesmo que eu tenha me negado a parabenizar a Rede
Globo por seus cinquenta anos na semana passada, quero confessar-lhes que
algumas telenovelas da emissora já fizeram parte de meu cardápio. Assisti com
certa devoção “O Bem Amado”, pois não havia como deixar de admirar a crítica
bem elaborada por Dias Gomes sobre as nuances da política. O corrupto prefeito Odorico Paraguassu, interpretado pelo brilhante Paulo Gracindo, movia montanhas para inaugurar sua maior obra do mandato, o cemitério de Sucupira. Foi a primeira novela do novo sistema de televisão a cores que se inaugurava no Brasil. E no período em que
foi exibida, entre janeiro e outubro de 1973, corria o risco de ser tirada do ar, num
momento em que a repressão militar predominava. Evento raro,
este foi um dos programas que me marcou.
O Mestre Ravengar, interpretado por Abujamra, na telenovela "Que rei sou eu?" |
Mas outra telenovela também catalisou meu tempo como
telespectador. De autoria de Cassiano Gabus Mendes, “Que rei sou eu?” foi ao ar
entre fevereiro e setembro de 1989, em plena campanha eleitoral onde votaríamos
para presidente de forma direta depois da ditadura. Um excepcional elenco
alocado no século XVIII relembrava o drama da Revolução Francesa, todavia, inserindo
na trama a realidade da política brasileira e seus desmandos. Alguns
personagens ficaram marcantes em minha memória, como o bôbo da corte encenado
por Stenio Garcia e Ravengar, o bruxo encenado por Antonio Abujamra. Além do
aprendizado político que se pode extrair daquele contexto, a história me
provocou grande curiosidade sobre a realidade do conflito ocorrido da França, e
que determinou a construção do Estado Moderno.
Mas não foi só isso, a partir de então passei a
admirar o ator, diretor de teatro e apresentador Antonio Abujamra. Principalmente
por seu tom sarcástico e provocador nas intervenções que fazia na novela. Como
Ravengar, Abujamra suscitava minha admiração por expor alguns conteúdos de cultura geral que o autor foi capaz de impregnar nas cenas de “Que rei sou eu?” Num
dos diálogos inesquecíveis da novela, Ravengar inquere seu pupilo “Lucien” a
respeito dos conhecimentos de geografia, e especificamente sobre um grande país
localizado na América do Sul. Sem saber de que país se trata, pois para Lucien o
que importa mesmo é a Europa, Ravengar adianta-se:
“Esse é um país que está sendo colonizado pelos
portugueses! Esse país no futuro será um exemplo para o mundo!”
Neste momento, Lucien interrompe perguntando:
“Exemplo do que, Mestre?”
Ao que Ravengar responde:
“De corrupção e vagabundagem! Um país muito rico, que
será entregue aos estrangeiros de mãos beijadas! Aos poucos!”
Ravengar prevê o destino do Brasil em "Que rei sou eu?"
Juro que jamais esqueci daquela cena, e que certamente contradiz tudo aquilo de quem vive hoje a realidade brasileira e costuma imputar a responsabilidade
pelos desvios e má aplicação das verbas públicas ao atual governo. Posso lhes garantir, baseado
em fatos como este, que a corrupção é epidêmica e assola o Brasil desde
áureos tempos.
Embora nascido em Ourinhos, no interior de São Paulo,
Abu estudou filosofia e jornalismo na PUC do Rio Grande do Sul, onde iniciou a
carreira como ator na segunda metade dos anos 50, estreando no Teatro
Universitário de Porto Alegre. Posteriormente estudou na Europa e retornou para
São Paulo em 1961, agora como diretor de teatro.
Na TV Cultura, Abujamra entrevistava personalidades em seu programa semanal "Provocações" |
Nos últimos tempos Abujamra tinha minha audiência cativa
no seu programa de entrevistas semanais, às terças-feiras, na TV Cultura, no ar há mais de quatorze anos. Em “Provocações”
entrevistou inúmeras personalidades, utilizando uma metodologia que me
arrebatava. Eram perguntas quase que padronizadas para todos os entrevistados.
Mas uma delas, ao final do questionamento, deixava todos pensativos: “O que é a
Vida?”. E fazia questão de repeti-la novamente, apesar das respostas elaboradas
à custa de muito esforço, fazendo o entrevistado ensimesmado. Ao final, se
fazia registrar ao lado do entrevistado em um foto, da qual dizia não ser
publicada, exceto se um deles morresse.
Pois bem, neste último 28 de abril, o “Mestre Ravengar
” nos deixou, e levou consigo toda a perícia de provocador. Mas nos deixou
frases interrogativas que destilou durante a vida, como essas: “Ninguém tem que sonhar. Sonho só dá
esperança, e a esperança já fodeu com a América Latina inteira”; “O mundo está cada vez mais feio!”; “A vida é sua. Estrague-a como quiser!”.
Pois é meu caro Abu, agora fica a saudade e a pergunta
que você fez para tantos de seus entrevistados: “O que é a Vida? ”
Um comentário:
Meu caro Jairo,
adiro à muito bem posta loa fúnebre que, merecidamente, teces ao grande mestre Abujamra.
Sou teu cúmplice na preliminar, também. Assisti, com devoção, a duas novelas da Globo: "Roque Santeiro" e "Gabriela, Cravo e Canela".
com admiração
attico chassot
mestrechassot.blogspot.com
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